quinta-feira, 7 de julho de 2016

Príncipe dos Espinhos



Título original: Prince of Thorns
Autor: Mark Lawrence
Nº de páginas: 320
Editora: 20|20 editora
Chancela: Topseller

Sinopse
«Com apenas 9 anos, numa emboscada planeada pelo inimigo para erradicar a descendência real, o príncipe Jorg Ancrath é atirado para dentro de um espinheiro, onde fica preso, com espinhos cravados na sua carne, a ver, impotente, a mãe e o irmão mais novo a serem brutalmente assassinados.
De alma destruída, sedento de sangue e de vingança, Jorg foge da sua vida luxuosa e junta-se a um bando de criminosos e mercenários, a quem passa a chamar de irmãos. Na sua mente há apenas um pensamento, matar o Conde de Renar, o responsável pelas mortes da mãe e do irmão, pelas suas cicatrizes e pela sua alma vazia.
Ao longo de quatro anos, Jorg cresce no seio de batalhas sangrentas, amadurece em guerras impiedosas, torna-se um guerreiro cruel e vai ganhando o respeito dos seus irmãos até que se torna o seu líder. Agora, um reencontro vai levá-lo de volta ao castelo onde cresceu e ao pai que abandonou. O que vai encontrar não é o mesmo sítio idílico de que se lembra, mas o príncipe que agora retorna também não é mais a inocente criança de outrora, é o Príncipe dos Espinhos.»

Opinião
A fantasia negra tem um novo protagonista, também ele envolto em treva e escuridão. Jorg tem um objectivo definido: vingar o seu passado. No entanto, esta missão revela-se uma faca de dois gumes. Conseguirá Jorg enfrentar os fantasmas do passado enquanto no presente outros fantasmas se erguem de locais inesperados, colocando-se entre a sua vontade e o seu alvo? Ser-lhe-á, ao mesmo tempo, possível recuperar o que é seu por direito?

Jorg, ou o Príncipe dos Espinhos, é um jovem perturbado, claramente marcado pelos eventos do passado e pelas figuras que o moldaram. A sua firmeza e maturidade, contudo, não transparecem os seus tenros catorze anos. Impetuoso e dotado de uma inteligência notável, Jorg tem a mente de um adulto e está determinado a impor-se como tal. A realidade deixou de ser um choque. Jorg vê nela um jogo em que se movem jogadores que ou ganham direito ao próximo movimento ou se perdem na teia de jogadas e são derrotados. Com esta personagem consegue-se o melhor deste livro. Se bem que nem sempre seja fácil compreender as decisões de Jorg por detrás da sua mentalidade sanguinária, o Príncipe dos Espinhos é o exemplo do poder que os eventos têm na percepção da vida e no crescimento pessoal, transformando até a mais profunda das nossas crenças. Acredito que talvez morramos todos os dias. Talvez nasçamos novamente a cada amanhecer, um pouco mudados, um pouco mais adiante da nossa estrada pessoal. Quando dias suficientes se erguem entre nós e a pessoa que fomos, tornamo-nos estranhos. Talvez crescer seja isso. Talvez eu tenha crescido.

Este crescimento é patenteado por uma alternância entre o passado e o presente de Jorg à medida que o livro avança. Enquanto o presente abre possibilidades envoltas em certas dúvidas, o passado esclarece parte dessas dúvidas e justifica o salto pessoal de Jorg. A identidade torna-se um conceito fulcral e a razão de agir e avançar no tempo e espaço. Estruturalmente, esta alternância confere à leitura uma maior agilidade e mistério, impulsionando o leitor a continuar freneticamente em busca das páginas finais.

Quanto ao universo em que Lawrence apostou, apesar de integrado no fantástico, não é totalmente fantasiado ou original. Vislumbram-se traços de uma Europa medieval que coincidem com a sensação de um mundo pós-apocalíptico. Este paradoxo, nem sempre perceptível, alia-se aos elementos do fantástico elaborados por Lawrence que são aqui mais ausentes que presentes. Além disso, estes elementos carecem de um aperfeiçoamento que é evidente noutras obras de fantasia, sendo que por vezes demonstram ser a solução mais evidente para os problemas em vez de a origem do problema a solucionar, o que é sempre mais interessante neste tipo de ficção. Este será um aspecto que espero ver melhorado nos próximos volumes. É notório, contudo, o ambiente negro e instável que se instala desde o início e permanece até ao último capítulo, um ponto a favor desta história.

As restantes personagens contribuem para esse ambiente. Não menos negras que Jorg, o seu séquito é constituído por homens muito diversos que se movem num sentido comum. Entre os Irmãos, há aqueles que mais marcam pela sua eloquência, como Makin e Núbio, e outros pela sua aspereza, como Rike. A união destas personagens leva a brutalidade a outro nível, tornando-se impossível não julgar os seus actos. É fantástico como o autor nos faz gostar destas personagens sedentas de sangue e destruição, que no fundo estabelecem um senso comum de família peculiar. Além destas figuras, também magos, reis, lordes, padres e outras criaturas fomentam este enredo obscuro, dando ao leitor personagens que este possa realmente detestar.

A escrita de Lawrence é acutilante, reflexiva e enérgica. Numa trama em que a acção é constante, é importante manter um estilo ágil e com conteúdo. E o autor consegue fazê-lo com facilidade. Mantendo um tom pessoal sob a perspectiva de Jorg, torna-se natural a aproximação a esta personagem e a gradual compreensão da sua história e, evidentemente, da narrativa.

Príncipe dos Espinhos é, assim, uma excelente introdução a uma nova trilogia da fantasia que prima pelo seu protagonista e pela névoa negra e mística que o envolve. Numa trama que é conduzida essencialmente por conflitos interiores e desmistificação pessoal, com actos sangrentos e tomadas de decisões imprevisíveis, destaca-se o que de pior há nas pessoas e como nisso encontrar força. Uma saga e um autor a seguir de perto.

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